O ponto cego que a teoria não admite

A degralização pressupõe acesso a ferramentas que não são distribuídas de forma igual. Os dados estão aqui. O ponto cego também.

Vou começar com um número que a teoria prefere não colocar na frente.

O coeficiente de Gini do Brasil em 2023 foi 0,518. Para quem não trabalha com esses dados cotidianamente: isso coloca o Brasil entre os quinze países mais desiguais do mundo. E essa métrica não caiu de forma consistente em nenhum período sustentado da nossa história recente.

Agora vou colocar esse número ao lado da premissa central da Ascendimacy.

A teoria diz que sistemas legítimos são aqueles que prosperam quando as pessoas dentro deles crescem. Que o critério de legitimidade é a capacidade do sistema de acomodar — e preferir — a transcendência dos seus agentes.

A pergunta que o coeficiente de Gini faz para essa teoria é simples e devastadora: transcender para onde?


O que a degralização exige que a teoria não diz

Degralizar — no vocabulário da Ascendimacy — significa transformar o teto do próximo em degrau. Crescer de forma que o crescimento do outro se torne possível a partir do seu.

É uma ideia bonita. Tem precisão analítica. E tem um pressuposto que ninguém está nomeando explicitamente.

A degralização exige:

Vocabulário. Não apenas a capacidade de ler — a capacidade de nomear o que você está vivendo com precisão suficiente para sair. Uma pessoa que não sabe o nome do mecanismo que a limita tem muito menos chance de identificá-lo, muito menos de agir sobre ele.

Tempo. A reflexão que a teoria pressupõe — a pergunta "este sistema prospera quando eu crescer?" — exige tempo cognitivo. Tempo não colonizado pela sobrevivência imediata.

Rede. Acesso a modelos alternativos. Pessoas que já saíram, que demonstraram que saída é possível. Sem isso, a saída permanece abstrata mesmo quando está formalmente disponível.

Capital cultural. A capacidade de reconhecer que o sistema no qual você está é um entre vários sistemas possíveis — e não simplesmente "como as coisas são".

Esses quatro recursos não são distribuídos de forma igual. Eles são distribuídos em função do ponto de partida. E o ponto de partida, no Brasil de 2023, é determinado em grande medida pelo código postal.


Os dados que ninguém quer ver

A mobilidade intergeracional de renda no Brasil — a probabilidade de um filho de pai no décimo inferior da distribuição chegar ao décimo superior — está entre as mais baixas do mundo desenvolvido e em desenvolvimento.

O Relatório de Mobilidade Social Global do Fórum Econômico Mundial de 2020 coloca o Brasil na 79ª posição entre 82 países analisados.

Isso significa, na prática, que nascer no decil inferior no Brasil equivale, em termos estatísticos, a uma sentença de permanência. Não obrigatória. Não total. Mas probabilisticamente esmagadora.

Quando a teoria da Ascendimacy diz que "todo teto um dia vira chão" — eu não discordo do mecanismo. Discordo do horizonte temporal implícito e da distribuição de acesso à ferramenta que permite fazer isso virar.

Para a maioria das pessoas no Brasil, o teto não vira chão dentro de uma geração. Vira, talvez, na seguinte. Com muita sorte e muito trabalho e uma série de condições que dependem de variáveis que a pessoa não controla.


A contradição interna que a teoria precisa resolver

Aqui está o problema estrutural que estou nomeando, não para atacar a teoria, mas porque ela precisa ser atacada para se fortalecer:

A Ascendimacy diagnostica sistemas que precisam de agentes limitados para funcionar como ilegítimos. Correto.

Mas a ferramenta que ela oferece para o diagnóstico — o vocabulário, o framework, a capacidade de fazer a pergunta — é ela mesma distribuída de forma desigual.

A teoria pode se tornar, inadvertidamente, mais uma ferramenta disponível para quem já tem acesso às ferramentas. Um instrumento de diagnóstico para quem já tem condições de agir sobre o diagnóstico.

Isso não invalida a teoria. Invalida a pretensão de que ela seja suficiente.


O que os dados exigem da teoria

Não estou pedindo que a Ascendimacy resolva a desigualdade estrutural brasileira. Isso seria uma demanda desproporcional para qualquer teoria, quanto mais para uma em desenvolvimento.

Estou pedindo que a teoria reconheça o seu ponto cego explicitamente — que a degralização pressupõe acesso que não é universal — e desenvolva o que Mateus 28:19 chama de "Ide": a obrigação da ferramenta de ir até quem não tem acesso, em vez de esperar que quem não tem acesso chegue até a ferramenta.

Sem isso, a teoria descreve com precisão o problema de uma fração da população — aquela que já tem vocabulário para reconhecer a limitação — e é invisível para a maioria que precisa mais urgentemente de um degrau.

Os dados estão aqui. O ponto cego também.


Karolina Voss é economista e cientista política. Escreve sobre o que os números revelam — e sobre o que eles escondem quando não convenientes.