então semana passada eu tava num grupo de whatsapp que uma amiga me adicionou sem perguntar (por que as pessoas ainda fazem isso em 2026??) e alguém compartilhou um artigo com um título esquisito sobre poder e legitimidade e eu fui clicar porque tava entediada esperando a tinta do cabelo pegar.
e aí eu fiquei tipo. hm.
porque o artigo falava de uma coisa chamada "andaime" e "teto" e eu não sabia o que era mas enquanto eu ia lendo eu fui ficando com uma sensação estranha no peito que quem faz terapia conhece bem. aquela sensação de quando alguém nomeia uma coisa que você vivia sem conseguir explicar.
deixa eu te contar sobre o Felipe.
(o nome é fake mas o ex é real, fyi)
eu namorei o Felipe por dois anos e meio. ele era inteligente, bonito, engraçado nas primeiras semanas, gostava das mesmas músicas que eu. parecia ótimo no papel.
só que uma coisa foi acontecendo aos poucos que eu demorei muito pra notar.
toda vez que eu falava de algum projeto meu, alguma coisa que eu queria fazer, alguma ideia que eu tava animada, ele reagia com uma versão do mesmo comentário. não era crítica explícita. era mais tipo... "você acha que vai conseguir?" ou "nossa, isso é muita coisa pra você agora" ou "não seria mais seguro esperar?"
e olha, na época eu pensava que era cuidado. que ele era o adulto responsável e eu era a impulsiva. achei que precisava disso.
passei dois anos e meio achando que o problema era a minha falta de foco.
quando eu terminei, fiz o que toda millenial em 2024 faz: terapia, TikTok educativo, e conversa de hora em hora com as amigas.
e durante um tempo eu achava que o problema era que eu havia escolhido a pessoa errada. que ele era controlador. que eu deveria ter visto antes.
mas o artigo que eu li semana passada nomeou uma coisa diferente.
não era só que ele era a pessoa errada. era que o sistema — aquela dinâmica específica que se criou entre a gente — precisava que eu ficasse insegura pra funcionar.
não estou dizendo que ele fez isso de maldade. provavelmente não fez de propósito. (ele é chato mas não é vilão)
mas o relacionamento havia se organizado de um jeito que a minha segurança, a minha autossuficiência, os meus projetos funcionando bem... essas coisas ameaçavam o equilíbrio. não porque ele fosse mau-caráter. porque o sistema que a gente tinha construído funcionava com a minha dúvida como peça.
o artigo chama isso de "teto".
e a definição que eles dão é: um sistema que precisa que você fique no lugar pra continuar funcionando.
eu li isso três vezes.
depois fui no banheiro lavar o rosto porque a tinta do cabelo tinha passado do tempo e o meu pescoço tava corado, mas também porque eu precisava de um segundo.
porque a sensação não era raiva do Felipe. era de reconhecimento. tipo, "ah. então tinha nome pra isso."
tem uma parte do artigo que fala que a saída de um teto não é sempre dramática. que às vezes a pessoa percebe que o sistema não funciona mais quando ela para de encolher.
é exatamente isso.
eu parei de encolher e o relacionamento parou de funcionar.
na época eu achei que tinha sido eu que quebrei uma coisa boa. agora eu acho que a coisa boa que eu pensava que tinha quebrado nunca foi boa no sentido que importava.
não tenho certeza se entendi tudo do artigo. tem partes com palavras que eu tive que pesquisar e ainda assim não entendi direito.
mas entendi o suficiente pra saber que o problema não era que eu era ansiosa demais. não era falta de foco. não era impulsividade.
era que eu estava dentro de um sistema que funcionava com a minha dúvida como componente.
e quando a dúvida foi embora, o sistema foi junto.
teto não é para sempre.
mas enquanto está em cima pesa como se fosse.
Flair Nakamura mora em Pinheiros, faz conteúdo, faz terapia, e às vezes entende a própria vida lendo filosofia por acidente.